• Jorge Bernardes

Dia mundial da Fotografia

Tenho estado a pensar nisto em pára arranca durante o dia, e é um dia que não podia deixar passar em branco, e tenho visto amigos e colegas de profissão a agradecer aos grandes Niépce e Daguerre por terem dado origem a algo que hoje em dia tem uma grande parte na vida de tanta gente. Mas eu tenho que fazer um agradecimento mais próximo. Este fica mais perto de casa, fica naquela que já foi a minha casa, com o meu pai.

Por muito que eu às vezes queira fazer sobressair as diferenças entre nós, às vezes torna-se impossível negar a influência que ele tem sobre mim. Este homem conseguiu induzir em mim a escolha de duas profissões completamente diferentes. E embora ele ainda esteja um bocado chateado por eu ter largado a primeira e ter decidido seguir a segunda acho importante que se saiba que foi ele que me levou até às duas. Tenho que lhe agradecer neste dia pois foi ele que me pôs pela primeira vez uma máquina fotográfica nas mãos. É certo que provavelmente aconteceu num dos dias em que estávamos os dois a ver os aviões passar num qualquer espectáculo aéreo algures por Portugal, daí a influência para a primeira profissão que tive. Mas já antes disso em minha casa se falava de fotografia porque o meu pai também fotografava. As minhas primeiras memórias de fotografia não são a fotografar mas sim a revelar fotos. Lembro-me distintamente de o meu pai montar o ampliador na casa de banho numa bancada improvisada por cima da banheira, dentro da qual estavam as tinas com os químicos que faziam aparecer as imagens no papel mágico que não podia apanhar luz. Lembro-me também que a nossa casa de banho da altura tinha uma janela alta com vidro fosco que dava para o meu quarto e que o meu pai tapava diligentemente com cartolina negra quando nos preparávamos para revelar fotos. Estava eu longe de saber o quanto aquilo me ia influenciar mais tarde. Peguei muitas vezes na máquina do meu pai, tirei fotos com ela, ouvi dicas dele com a ligeireza de quem trata de um passatempo porreiro, que é para tantos, como era para ele. Mais tarde, com 16 anos, fiz um curso de fotografia de verão, 3 semanas de loucura, em que o rolo era ilimitado e o tempo na câmara escura era o máximo que se pudesse aproveitar. Disparei nessa altura em analógico como se faz hoje em digital, de forma rápida (e um bocado descuidada) como quem toma o gosto de algo viciante mas sem se aperceber que está viciado. Entretanto vieram os meus 18 anos e encostei a máquina, resolvi ir para a outra profissão, e estudei, fiz e aconteci. Mas com o passar dos tempos a vontade de fazer imagens foi reaparecendo cada vez com mais força.

Comprei uma máquina, li revistas, li livros, vi imagens, voltei a ler, segui tutoriais no youtube e outros sites de fotografia, fiz um curso profissional à noite, nas horas vagas, etc. Disse ao meu pai que tinha decidido largar a primeira profissão para seguir a segunda, ele não gostou muito, sem se aperceber que tinha sido ele que me tinha dado essa opção muitos anos antes. "Para quê largar algo seguro, que paga todos os meses a mesma coisa no mesmo dia, por algo que pode não dar o suficiente para tudo?" perguntava ele. Para ser mais feliz. Acho que a fotografia me aproxima das pessoas e das coisas importantes deste mundo. Sinto-me bem por trás da máquina a fazer sentir bem quem está à frente dela. Como cheguei aqui pelas mãos do meu pai, aqui ficam as mãos do meu pai, com máquina fotográfica.

As mãos do meu pai - My father's hands

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